Há quem ouça o novo álbum de Anitta apenas como um lançamento musical. Mas limitar EQUILIBRIVM a uma sequência de faixas seria ignorar uma das obras mais simbólicas da carreira da artista. Em seus dois volumes, o projeto vai além do pop e propõe um mergulho nas origens do Brasil, resgatando elementos da cultura afro-brasileira, dos povos indígenas e da espiritualidade como parte da identidade nacional.
O resultado é um trabalho que não apenas divide opiniões, mas também provoca uma pergunta importante: por que, em um dos países mais diversos do mundo, ainda existe tanto desconforto quando artistas dão visibilidade às religiões de matriz africana?

Um país de muitas crenças
O Brasil é reconhecido mundialmente pela diversidade cultural. Essa pluralidade também está presente na religião.
Dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que o país continua sendo majoritariamente cristão. Os católicos representam 56,7% da população, enquanto os evangélicos correspondem a 26,9%.
Também fazem parte desse mosaico religioso pessoas sem religião (9,3%), espíritas (1,8%), adeptos da Umbanda e do Candomblé (1%) e seguidores de diversas outras tradições religiosas.
Embora o percentual de praticantes das religiões de matriz africana pareça pequeno, pesquisadores alertam que esse número pode ser maior. O preconceito e o medo da discriminação ainda fazem com que muitas pessoas prefiram não declarar sua religião.
A herança africana que construiu o Brasil
A influência africana está presente na música, na culinária, na dança, na linguagem, nas festas populares e em diversas manifestações culturais brasileiras.
Mas, durante séculos, as religiões trazidas pelos povos africanos escravizados foram perseguidas. Terreiros eram fechados, rituais proibidos e objetos sagrados apreendidos. Para preservar suas crenças, muitos passaram a associar os orixás aos santos católicos, fenômeno conhecido como sincretismo religioso.
Mesmo após a Constituição garantir liberdade religiosa, a intolerância permaneceu.
Atualmente, praticantes de Umbanda, Candomblé e outras religiões de matriz africana continuam entre as principais vítimas de casos de intolerância religiosa registrados no país, demonstrando que o preconceito histórico ainda resiste.
Quando a música vira espaço de representação
É justamente nesse contexto que EQUILIBRIVM ganha força.
Ao longo do projeto, Anitta incorpora referências ao Candomblé, utiliza expressões em iorubá, idioma originário da África Ocidental preservado em rituais religiosos brasileiros, apresenta símbolos ligados aos orixás e aproxima o público de uma herança cultural frequentemente invisibilizada.
Mas o álbum não se limita à ancestralidade africana.
A artista também abre espaço para referências indígenas, valorizando povos originários e estabelecendo um diálogo entre tradição, natureza e futuro. A presença de artistas indígenas reforça a proposta de mostrar que a identidade brasileira não nasce de uma única origem, mas da convivência entre diferentes culturas.

Nesse sentido, o álbum deixa de ser apenas entretenimento para assumir um papel de manifestação artística e política, ao defender a diversidade como elemento central da formação do Brasil.
A arte também educa
Toda grande obra provoca reações.
Enquanto parte do público celebrou a valorização das raízes afro-brasileiras e indígenas, outra parcela reagiu com críticas motivadas, muitas vezes, por desconhecimento ou por interpretações religiosas.
Esse movimento revela um fenômeno conhecido: símbolos cristãos costumam ser amplamente aceitos na cultura popular brasileira, enquanto elementos ligados às religiões de matriz africana frequentemente despertam estranhamento.
O contraste evidencia um debate que vai além da música e alcança a própria liberdade religiosa.
Em um Estado laico, todas as crenças possuem o mesmo direito de existir, serem professadas e representadas artisticamente. Nesse cenário, trabalhos como o de Anitta ajudam a ampliar o conhecimento sobre tradições que, durante décadas, permaneceram restritas ou foram retratadas apenas por estereótipos.
Um Brasil que começa a olhar para suas raízes
O sucesso de EQUILIBRIVM também acompanha uma transformação cultural.
Nos últimos anos, artistas, escritores, cineastas e produtores culturais têm revisitado a ancestralidade africana e indígena como parte da construção da identidade brasileira.

Esse movimento não significa substituir uma religião por outra ou defender determinada crença. Significa reconhecer que a história do Brasil foi construída por diferentes povos e que todas essas contribuições merecem espaço, respeito e visibilidade.
Mais do que um álbum
Talvez a maior contribuição de EQUILIBRIVM não esteja nas plataformas de streaming.
Ela está na conversa que nasce depois da última música.
Quando milhões de pessoas pesquisam o significado de palavras em iorubá, perguntam quem são os orixás, procuram entender símbolos religiosos ou conhecem a participação de artistas indígenas, a música deixa de ser apenas entretenimento.
Ela se transforma em ponte.
Uma ponte entre passado e futuro.
Entre tradição e contemporaneidade.
Entre quem sempre ocupou espaço e quem, por muito tempo, foi silenciado.
Num país cuja riqueza está justamente na mistura de culturas, talvez esse seja o maior equilíbrio proposto por Anitta: lembrar que conhecer a história do outro não diminui a própria fé. Pelo contrário. Amplia o respeito, fortalece a diversidade e ajuda o Brasil a enxergar, sem medo, a pluralidade que sempre fez parte de sua essência.



