A região do Médio Juruá viveu mais um marco histórico na conservação da fauna amazônica: 380 mil filhotes de quelônios, entre iaçás, tracajás e tartarugas-da-amazônia, foram liberados em 19 praias de tabuleiro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, no município de Carauari. A iniciativa, realizada no fim de novembro, coroou um esforço que atravessa três décadas de mobilização comunitária, pesquisa participativa e manejo sustentável.
As comunidades Xibauá, Morro Alto, Santo Antônio de Brito, Bauana e Nova Esperança lideraram a ação, construída em parceria com a Sema, ICMBio, Amecsara, Amaru e Prefeitura de Carauari. Para quem vive às margens dos rios, a soltura anual representa um compromisso que vai muito além da preservação ambiental, é um pacto cultural e social com o futuro da Amazônia.

“Cada filhote solto é a prova viva do cuidado de quem protege esses territórios todos os dias. Esse resultado nasce da dedicação das famílias que transformaram a conservação em parte da vida comunitária”, destacou Gilberto Olavo, gestor da RDS Uacari.
O monitoramento de quelônios no Médio Juruá começou ainda nos anos 1990 e evoluiu para um dos programas de conservação mais consistentes do estado. O modelo é baseado em formação de moradores como monitores ambientais, oficinas de capacitação, vigilância das praias, coleta padronizada de dados e atividades educativas, como a tradicional gincana ecológica.
O trabalho segue protocolos do Instituto Pé de Pincha, que orienta o manejo seguro dos ninhos e práticas que aumentam a sobrevivência dos filhotes após a soltura. O sucesso acumulado abriu caminho para regulamentações do Conselho Estadual de Meio Ambiente e para experiências pioneiras de manejo comunitário legalizado.

Em 2019, três comunidades receberam autorização do Ipaam para iniciar o manejo experimental. O impacto foi evidente: em 2025, Carauari realizou a venda controlada de mil quelônios legalizados, gerando R$ 80 mil em renda para 50 famílias, um exemplo de economia sustentável baseada na conservação.
A ação envolveu organizações que atuam no território há anos, como Asproc, Codaemj, Asmamj, Instituto Juruá, Sitawi e Fundação Amazônia Sustentável. A união entre comunidades, governo e instituições reforça a estratégia que transformou o Médio Juruá em uma das referências amazônicas em manejo participativo.
Mais do que um evento anual, a soltura dos filhotes representa a continuidade de um processo que alia ciência, tradição, organização social e defesa do patrimônio natural da região. Um trabalho silencioso, persistente e essencial para garantir que os rios amazônicos continuem pulsando vida.



